África e o Mundo do Assoalho Pélvico

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Quando me formei em fisioterapia tinha certeza da especialidade que queria: fisioterapia pélvica. Mas mais do que isso eu tinha certeza que a missão era ajudar quantas mulheres eu conseguisse. Estima-se que até 40% das mulheres possuem alguma disfunção do assoalho pélvico. Incontinência urinária e dor pélvica crônica são as principais disfunções. Mulheres que não conseguem ter relações sexuais, que não conseguem trabalhar pela dor ou que simplesmente tem vergonha de sair de casa por medo do cheiro de urina. Fiz um mestrado em reabilitação do assoalho pélvico em Barcelona. E quando voltei para o Brasil ajudei a montar dois centros de reabilitação do assoalho pélvico para o SUS.

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Departamento de Fisioterapia Kumasi – Gana

Mas esse ano realizei o grande sonho da minha vida: ir até a África e poder treinar equipes para atender a essas mulheres tão sofridas. Passei 15 dias em Gana. Visitei dois centros hospitalares em Acra e Kumasi. A equipe profissional era na sua maioria homens – poucas mulheres se graduam por lá. Apesar de aos poucos parecer que este cenário está se modificando.

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Aula sobre Dor Pélvica Crônica em Accra – Maio de 2018

Na África ainda são muitos os casos de fístulas vesico vaginais (quando há uma união da vagina e bexiga por um trauma), abuso sexual, mutilações, traumas obstétricos entre outras patologias. Os recursos são escassos e como não se pode fazer exames mais complexos muitas mulheres vivem sem diagnósticos para suas doenças.

Quando eu comecei a acompanhar as consultas observei que os profissionais não levavam em consideração a dor, ou seja, apesar de ser visível que aquelas mulheres tinham dor na região do assoalho pélvico isso não parecia ser um problema para ninguém. E as mulheres pareciam se conformar em se submeter aquela situação. Foram necessárias algumas aulas para toda unidade de ginecologia para que eles entendessem que a dor era um problema.

Por questões culturais e religiosas as mulheres se sentem obrigadas a ter relações sexuais com seus maridos mesmo com dor para não correrem o risco de serrem expulsas de suas tribos ou outras penalidades. Ah sim, na ficha médica (escrita toda a mão) uma das perguntas era sobre qual tribo a mulher pertencia. Gana foi uma colônia britânica por muitos anos. A língua oficial é inglês, mas as pessoas mais humildes (que são a grande maioria) falam dialetos como o twi. Meu apelido era “obruni” que significa “branquela”.

Poder conviver estes dias com estas mulheres foi uma grande mudança de vida. Que mulheres fortes. Não existe atividade física… elas não praticam corridas, não vão para as academias… Elas carregam quilos de mandioca na cabeça, andam quilômetros em busca de água potável, carregam seus filhos amarrados ao corpo enquanto trabalham. Sofrem de todo tipo de dor e chegam até o hospital conformadas e resilientes.

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 O calor intenso e o medo da malária já não importavam mais depois de alguns dias. E apesar de me sentir mais forte que nunca quando voltei para casa por algumas semanas tive pesadelos diariamente com mulheres despedaçadas… partes de corpo retalhados e sangue. Depois de um tempo os sonhos se acalmaram. Mas às vezes ainda me pego pensando naqueles dias.

NY

No Central Park em Nova Iorque – Agosto de 2018/ depois de um gole quente de café uma dor invade o peito por me dar conta da falta de equidade no mundo… e que eu faço parte disso. Sentimento que me invade seguidamente.

Tratar a mulher que se urina ao carregar as caixas de tomate na cabeça para vender na feira, ou a mulher que ficou com uma disfunção miccional grave pois na escola onde leciona passam cobras nas valas abertas para servirem de banheiro, ou então tratar as vítimas de mutilação genital e abuso sexual que nunca mais puderem ter a oportunidade de reconstruir suas vidas… Ver as cirurgias de reconstrução do assoalho pélvico… Foram noites sem dormir. Mas como um dos ginecologistas de lá me disse: Se você mudar a vida de uma única mulher aqui sua vinda terá valido a pena.

Valeu…

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Equipe médica em Kumasi

Esse projeto é da IUGA (Associação Internacional de Uroginecologia) que tem há alguns anos o “Ghana Project”. O próximo destino será o Nepal. No início eram apenas os médicos que eram convidados. Mas após um fellow que realizei na Cleveland Clinic em Weston, onde dei aula de dor pélvica crônica aos residentes da uroginecologia, convenci o chefe do serviço a colocar fisioterapeutas no programa. Na época o Dr. Willy Davila era o responsável pelo programa. Que sorte a minha. Existem milhares de mulheres pelo mundo em condições de extremo desamparo. Precisamos cada dia mais nos unir e lutarmos umas pelas outras.

 

Um abraço carinhoso,

Cris Carboni

03/11/2018

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